A televisão como lazer para as crianças
Deborah Trevizan

Se o lazer se caracteriza como o conjunto de atividades ao qual o indivíduo se entrega voluntariamente para descansar ou divertir-se depois de cumpridas as suas obrigações profissionais, familiares, sociais, religiosas ou políticas, o que pode representar este momento para as crianças?
Nas grandes cidades, não há espaço suficiente e disponível para brincadeiras, ainda há a agravante da violência que não permite que as crianças possam ficar livres como antigamente e ainda menos tempo de dedicação dos pais. Desta forma, a televisão se torna cada vez mais presente na vida das crianças, desde os primeiros anos de vida. Se a babá é a "eletrônica", é muito fácil que a televisão se torne, se não a única, a maior fonte de lazer.
Em grande parte das famílias, as crianças ligam e desligam a TV quando bem entendem, definem a programação que querem assistir e às vezes a família até segue esta grade. Mas, apesar de todas estas decisões ficarem em suas mãos, a TV ainda é muito analisada sob a perspectiva de vilã, não se levando em consideração que as crianças se colocam como atores neste processo receptivo.
Críticas aos meios de comunicação não faltam: alienam, induzem, "emburrecem" e ainda mais, afirma-se que as crianças e adolescentes acabam sendo alvo fácil já que ainda não têm a personalidade formada que os faça enxergar a realidade como ela é, sem máscaras. Ao mesmo tempo, são estes meios de comunicação que estão por toda a parte e se misturam com o conhecimento e o aprendizado que as crianças adquirem na escola ou com a família, apresentando-se como um elemento de formação cultural.
Há uma grande preocupação em saber se, para os pequenos, a ficção se confunde com a realidade e de que forma os modelos vistos são imitados.
Outro aspecto muito difundido é que a televisão levaria às crianças a um isolamento que não leva ao desenvolvimento sadio da personalidade da criança. Mas o tipo de solução para este problema é que as crianças assistam à TV em família ou com amigos, o que levaria a uma atitude em grupo e também possibilitaria a discussão das mensagens assistidas.
Ao assistir à televisão nos horários dedicados ao lazer, se está explorando um espaço lúdico por excelência. Uma boa escolha, orientada criticamente pelos pais e, respeitando as faixas etárias ao buscar programas que estejam de acordo com o desenvolvimento social em cada idade, a tendência é somar e não subtrair.
E voltando à questão das crianças não serem agentes passivos, citamos Jean Piaget quando afirma que já a partir dos dois anos de idade a criança começa a criar símbolos mentais, imagens ou palavras que representam objetos e indicam o desenvolvimento da inteligência. Desde cedo, os pequenos entram em contato com as imagens e sons da televisão, desde cedo as crianças assimilam as imagens/sons e montam os seus "faz de conta" e histórias a partir deste conhecimento de mundo que passam a ter. E por isto, a estimulação ambiental nas crianças é importante para a formação da personalidade. E a utilização da TV neste sentido pode ser extremamente útil. E quando falamos das crianças atuais, a questão é ainda mais profunda, já que são indivíduos que nasceram, cresceram num mundo visual.
A escolha das crianças pelo lazer televisivo não pode ser considerado um fato ingênuo e ocorrido ao acaso. Na sociologia da educação é o educando (no caso as crianças) o sujeito da própria educação (neste caso numa educação informal proporcionada pela televisão) e não o professor ou a escola. Então precisamos ter bem claro que a escolha por assistir televisão e não brincar de carrinho, por exemplo, não tem apenas a questão da falta de opção de espaço, mas uma escolha consciente feita pelas crianças. Apesar das opções de lazer para quem mora nas grandes cidades não serem vastas, há, mesmo que pequena, uma chance de optar.

A influência boa e má da televisão

"Demorou muito tempo até que se desse conta de que as crianças não são homens ou mulheres em dimensões reduzidas. As crianças criam para si, brincando, o pequeno mundo próprio".
Walter Benjamin

E é desta forma que as crianças assistem à TV, não imitando adultos que assistem a um telejornal, muitas vezes, não por lazer, mas para se informar sobre as cotações econômicas, por exemplo. A criança assiste por lazer, elas brincam e interagem. Ficam fascinadas em frente à televisão.
Há uma interação com o meio, o trazendo para o seu pequeno mundo próprio. A TV é o jogo, a brincadeira da criança. Ao se colocar diante da tela, a criança não está substituindo suas brincadeiras, mas encontrando na um outro brincar, evidente que diferente das brincadeiras de rua, mas como todas as brincadeiras são diferentes entre si.


 


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