Mãe solteira...

Para que a concepção de um ser humano seja possível, inexoravelmente necessita-se de um homem e de uma mulher. Quando pensamos na chegada de um bebê, costumamos imaginar que esse mesmo casal que o concebeu, será em conjunto o que o trará ao mundo, o cuidará e educará. Esta é a situação ideal e previsível. No entanto, não é a que se apresenta em todos os casos. Pelo contrário, cada vez é mais frequente encontrar mulheres que enfrentam a maternidade sem um homem ao seu lado. As razões são várias, mas basicamente poderíamos classificá-las em dois grandes grupos: as mães que não escolhem viver essa situação (mulheres que são abandonadas pelo marido, falecimento do pai do bebê ou filhos concebidos fora de um casamento estável), e as que decidem ter o seu bebê sozinhas. Há momentos em que esta responsabilidade se torna francamente pesada e é necessário compartilhar com alguém. E é precisamente nessas alturas que a ausência de um marido se faz notar com mais força.

Nem tudo é cor-de-rosa

A maternidade é uma das experiências mais maravilhosas por que pode atravessar uma mulher. No entanto, nem tudo é cor-de-rosa. Ter um filho também implica noites sem dormir, fraldas para mudar, tarefas domésticas que se multiplicam, o bebê que tem febre, os problemas que podem surgir no colégio... Há momentos em que esta responsabilidade se torna francamente pesada e torna-se necessário compartilhar com alguém. É precisamente nestes momentos que a ausência de uma companhia se faz notar com mais intensidade.

O meu marido abandonou-me

Quando a mulher grávida é abandonada pelo seu marido, além de uma família constituída existe também uma família acrescentada, ou seja avós, tios e primos pertencentes ao grupo familiar paterno, que pode funcionar como uma rede de apoio e contenção para a Mamãe e o bebê. Sempre e quando, claro, não atuem em consonância com o Papai e desapareçam juntamente com ele. Toda a situação de abandono provoca incerteza e toda a gravidez emociona. Uma combinação perigosa se pensarmos no desequilíbrio emocional a que pode conduzir. A Mamãe que não desejou a separação certamente que atravessará momentos de ambivalência face à notícia da gravidez. Interrogar-se-á se realmente a deseja, se poderá enfrentar sozinha as necessidades econômicas e afetivas do seu filho, e não serão poucas as vezes em que se debaterá perante a dúvida de seguir em frente ou não.

Uma situação penosa

Às vezes, pode acontecer que o Papai do bebê faleça durante a gestação. Nesta situação, é habitual que a futura Mamãe se agarre ao bebê como a única coisa com que ficou do ser amado, e o receio da perda da gravidez costuma aumentar consideravelmente. O processo normal de luto pode ver-se afetado e às vezes até chega a passar para um segundo plano, oculto pela alegria que provoca a chegada do novo ser. Será depois do nascimento, quando à depressão pós-parto normal se lhe somar o luto propriamente dito, com o consequente incremento da angústia. Em outros casos, o luto dificulta a relação da Mamãe com a sua gravidez. Ela perde o interesse por tudo, inclusivamente pela sua "barriga", e não consegue sentir-se feliz nem sequer face à chegada do filho.

O filho como produto de uma relação não estável

A chegada de um filho como fruto de uma relação não estável pode ocasionar uma verdadeira emoção na mãe e desencadear os mais variados sentimentos face a uma gravidez que não foi planeada nem desejada. Recusa, temor, vergonha, dúvida, medo e ambivalência são somente algumas das emoções que podem experimentar-se face à notícia. O fato de se tratar de uma situação inesperada costuma originar dúvidas sobre o que fazer, e não são poucas as vezes em que à incerteza se juntam as pressões do companheiro que não quer envolver-se na decisão. A mulher sente vergonha e receio face às explicações que julga dever dar à sua família e amigos, e embora atualmente a sociedade já não discrimine uma Mamãe que está sozinha, o "que dirão" é outro dos receios mais frequentes. Muitas vezes, a ambivalência costuma manifestar-se no fato de que o desejo intenso de ser mãe já estava presente antes de ficar grávida, mas concretiza-se numa situação e num momento que parecem pouco convenientes.

Quando surge a angústia

Quando a mulher enfrenta a maternidade sem um homem ao seu lado e esta situação não foi escolhida, o início da gravidez parece estar definitivamente marcado pela angústia. A tal ponto que durante os primeiros meses é provável que a dor face à situação de abandono, traição ou luto, impeça a futura Mamãe de assumir plenamente o seu estado. Toda a perda – e neste caso não somente do marido mas também de uma família juntos – constitui um luto. Luto que será necessário atravessar para poder enfrentar a maternidade e dedicar-se tanto à gravidez como ao bebê.

Não está sozinha

À medida que a data de parto se aproxima, é provável que a angústia se acentue. Pensemos que habitualmente a gestação coloca a mulher numa situação de dependência respeitante aos outros, de maneira que é natural que face à ausência do marido se sinta sem forças. A verdade é que há momentos em que lhe custa imaginar-se sozinha: o curso de preparação para o parto, o início do trabalho de parto, a sala de partos... Quem me dará alento para continuar a puxar?... Quem me dará o apoio que necessito se me assusto no parto? São somente algumas das interrogações comuns a todas as mulheres, e que numa Mamãe sem marido despertam uma ansiedade ainda maior. Daí a importância que adquire a presença e o apoio da família e dos amigos.

Mamãe por decisão própria

Muitas são as motivações que podem levar uma mulher a planear uma gravidez sem ter o marido ao seu lado. Qualquer que seja a razão, quem escolhe – por sua própria determinação – enfrentar a maternidade sozinha, costuma ser muito exigente consigo própria e não se deixa invadir sem mais nem menos por sentimentos contraditórios. A decisão foi consciente e planejada, de maneira que as dúvidas e a angústia não deveriam existir. No entanto, a gravidez habitualmente provoca sentimentos de ambivalência, angústia, receio e alegria. É normal que assim seja, e isso não significa que a Mamãe esteja arrependida da sua decisão.

A depressão pós-parto

É sabido que todas as Mamães atravessam um período de tristeza puerperal em que estão sensíveis demais e choram por qualquer coisa, embora tudo tenha corrido bem. As mulheres que não planificaram criar os seus filhos sozinhas tendem a atribuir estes sentimentos à perda do marido. Aqui, o bebê passa a ser considerado como a única fonte de felicidade e o único ser que as faz sentir amadas e úteis. Por isso, a ansiedade e a depressão costumam a manifestar-se na forma de sobre-proteção e receio de que alguma coisa aconteça. Aquelas que decidiram ser Mamães apesar de não estarem casadas, por outro lado, podem sentir-se obrigadas a negar muitos dos conflitos emocionais que vão aparecendo no seu caminho. Talvez devido ao fato de terem caído no erro de ver com demasiado otimismo e exigência o fato de "poderem" fazer tudo sozinhas.

Um vínculo apertado

Para a Mamãe que está sozinha, é comum que o filho se converta na pessoa que dá sentido à sua vida. Como não tem um marido que proporcione dinheiro ao lar, geralmente tem de sair para trabalhar e ficar muitas horas fora de casa para manter o seu bebê, enquanto o deixa ao cuidado de outras pessoas. Não obstante, estabelece-se entre ambos um vínculo afetivo muito estreito. É tanto o que nele deposita e passa a ocupar tantos aspectos da sua vida de mãe que tudo começa a girar à sua volta, inclusivamente com maior importância que em outros casos. Por outro lado, a sensação de não ter com quem partilhar a criança e o receio de não ser uma boa Mamãe fazem com que muitas vezes, na altura de impor limites, a dificuldade seja maior.

Mamãe full-time

Do trabalho para casa e da casa para o trabalho, a Mamãe costuma descuidar outras áreas que começam a ser ocupadas unicamente pelo seu filho. Frequentemente, este descuido leva-a a manter-se afastada dos intercâmbios sociais e a estimular a ideia de que ambos estão "sozinhos no mundo" e de que " só se têm um ao outro". Um vínculo muito absorvente que prejudica tanto a Mamãe como o filho, porque as crianças também têm a sua vida e necessidades pessoais que não podem ser satisfeitas pelas suas mães.

O papel da família

É fundamental que a mãe possa buscar apoio na sua família, na do Papai e nos amigos. Embora pareça que está muito sozinha, há sempre um familiar ou uma amiga desejosos de colaborar. O importante é não sentir medo ou vergonha de pedir ajuda pensando que, dada a situação se tem a obrigação de ser auto-suficiente. Por outro lado, fomentar a independência da criança favorece o intercâmbio com os restantes membros da família, como os avós ou tios, e ajudá-la-á a incorporar a imagem paterna que necessita. De qualquer modo, o mais importante é a "ideia de pai" que a própria Mamãe tem, porque é ela quem a transmitirá ao seu filho à medida que vai crescendo. A frequência com que a criança vê a família paterna contribuirá também para melhorar os seus intercâmbios sociais e somar afetos. Daí a importância de que o contato com eles seja frequente, embora não necessariamente diário.

Mãe e mulher

As Mamães não devem esquecer que também são mulheres, e que não existe nenhuma razão que as impeça de refazer a sua vida de conjugal e as suas relações familiares. Qualquer que seja o motivo que conduziu à maternidade sem Papai, existe sempre a possibilidade de voltar a formar um casal que aceite o filho e – talvez – com quem ter outros filhos. Face a esta situação, muitas vezes o principal receio tem a ver com os sentimentos da criança. Estiveram durante tanto tempo os dois sozinhos que a Mamãe sente que estaria a traí-la se constituísse uma família com um homem.

Mamãe, porque não tenho Papai?

À medida que a criança cresce, geralmente quando entra no jardim-escola e está em contato com outras crianças que falam dos seus Papais, começam a aparecer perguntas do seu pai. E tem direito a saber as respostas verdadeiras, que deverão ser avaliadas em função da sua idade. Porém, nunca se lhe deve mentir. Mas para além das suas dúvidas ou da ambivalência inicial, uma mulher que tem um filho compromete-se a cuidá-lo e a criá-lo, e essa é a maior prova de amor que lhe pode dar. Trata-se de uma atitude de compromisso com a verdade, de respeito por esse ser humano que, embora pequeno, tem direito a conhecer a sua história.

 


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